Em março, sete sindicatos rurais do Paraná completaram 60 anos de atuação: Alto Paraná, Ibiporã, Jacarezinho, Paranavaí, Santo Antônio da Platina, São João do Caiuá e Sapopema. Não por acaso, a história desses sindicatos se mistura com a da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP), que se tornou sexagenária em dezembro do ano passado. Ou seja, essas entidades participaram ativamente da construção inicial do sistema sindical rural do Paraná.
Até o início dos anos 1960, o meio rural no Brasil era “desorganizado” em relação a outros setores econômicos. No Paraná, as chamadas associações rurais dos municípios agregavam os envolvidos nas atividades do campo, desde os trabalhadores, caminhoneiros e proprietários de terras, sem separação por categoria.
Por uma exigência do Ministério do Trabalho, em 1965, as associações rurais teriam que se tornar sindicatos para continuar atuantes. Então, em dezembro daquele mesmo ano, em um evento chamado Encontro Regional Rural de Curitiba, a FAEP liderou uma campanha de sindicalização dessas associações.
“Ao longo do tempo, nossos sindicatos rurais ampliaram seu papel, passando a defender os interesses dos produtores, promover o crescimento do setor e fomentar os cursos para qualificação”, explica o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.
“Seis décadas depois, a trajetória desses primeiros sindicatos revela, além da longevidade, a consolidação de um modelo de organização que ajudou a moldar o desenvolvimento do campo no Paraná. Hoje temos um sistema sindical rural forte e atuante por conta destes e dos demais sindicatos espalhados pelo Estado”, complementa.
Confira a história de atuação de cada um destes sete sindicatos rurais.
Ibiporã: construção do futuro do agro local
A história recente do Sindicato Rural de Ibiporã, no Norte do Estado, é marcada por reconstrução, mobilização e protagonismo. Nos anos de 2003 e 2004, caminhoneiros e produtores da região se uniram em uma manifestação por melhores condições para o setor, chegando a interditar estradas e pontes importantes da região. Esse protesto evidenciou a fragilidade da representação local e levou à reabertura do sindicato, que estava inativo há anos. À frente dessa retomada, produtores como Orivaldo Bigati, Hildo Favoreto e Adilson Maggi formaram uma junta governativa e, com apoio e suporte do Sistema FAEP, reorganizaram a entidade.

Com a reestruturação, Nadir Bigati, irmão de Orivaldo, assumiu a presidência, permanecendo por três gestões até seu falecimento. Apesar dos avanços, o período também deixou lacunas, como a perda de associados, um dos principais desafios enfrentados por Florisa Satie Hoshino ao assumir a presidência, em dezembro de 2021.
“Logo que assumimos, a situação para trabalhar estava no vermelho. Então, focamos na mobilização de cursos e na busca por novos associados. Mas, olhando pelo lado positivo, isso nos forçou a ir além do básico e oferecer outras possibilidades”, relembra Florisa.
Filha de produtores rurais, Florisa carrega o agro na própria trajetória. Sua chegada à presidência foi um processo natural, construído ao longo dos anos de participação no sindicato, inicialmente acompanhando o marido Luiz Hoshino, integrante da diretoria, em reuniões. “Eu nasci no agro. Sempre estive próxima dessa realidade e o sindicato foi um caminho que surgiu de forma orgânica na minha vida”, afirma.
Sob sua liderança, a entidade passou por um processo de revitalização. O número de associados dobrou e a atuação diversificou, com a oferta de serviços como declaração do imposto de renda, emissão de certidões, gestão de folha de pagamento, além de cursos e capacitações em parceria com o Sistema FAEP.
Outro marco importante foi o fortalecimento da participação feminina. “A presença das mulheres sempre existiu, mas ganhou força com programas específicos. Hoje, vemos o quanto isso faz diferença na gestão e no dinamismo do sindicato”, destaca a presidente.
No processo de reestruturação, iniciativas como a Comissão Estadual de Mulheres da FAEP e o programa Sindicato Protagonista contribuíram para estruturar metas, ampliar serviços e incentivar uma atuação mais estratégica.
“Esses programas tiram da zona de conforto, pois trabalhamos com metas claras e acompanhamento de consultores. Isso impulsiona o crescimento do sindicato”, explica Florisa.
Atualmente em sua segunda gestão, a presidente celebra os avanços conquistados, especialmente no reconhecimento institucional e na relação com o poder público. “Hoje temos visibilidade no município. A prontidão do Sistema FAEP também é algo que faz diferença”, ressalta.
Em um município com forte produção de soja e milho, além de trigo e café em menor escala, o sindicato segue como uma peça-chave no apoio ao produtor rural. Para Florisa, o caminho está claro: fortalecer a base, ampliar a participação e seguir construindo, coletivamente, o futuro do agro local.
São João do Caiuá: sucessão garantida
A história do meio rural de São João do Caiuá se confunde com a própria trajetória de Mauricio Luiz Vituri, atual presidente do sindicato local. Filho de produtor rural, ele viu de perto o ciclo do café desde a formação de lavouras robustas, como os 80 mil pés plantados pelo pai em Rolândia, até as perdas causadas pela geada negra de 1975, que mudou os rumos da produção do Paraná. Foi nesse contexto de transformação que surgiu a ligação de Vituri com o sindicato. Primeiro como representante do pai, ainda na década de 1970, depois como associado, nos anos 1980.

“Comecei a participar quase por acaso. Meu pai era associado, mas preferia pescar, então acabei indo no lugar dele. Quando vi, já estava envolvido com o sindicato”, explica Vituri.
“Naquela época, o pessoal era unido, entusiasmado. Hoje é diferente, mas seguimos firmes”, lembra.
Desde então, Vituri construiu uma trajetória de liderança dentro da entidade, primeiro como tesoureiro, depois vice-presidente e, desde 2013, ocupa a presidência, na sua quinta gestão.
Prestes a completar 82 anos, ele já vislumbra a continuidade. “A próxima geração está interessada. Os filhos dos diretores já estão participando. Esse é o caminho natural”, avalia. Entre as conquistas mais recentes, Vituri destaca o fortalecimento da base, com a aproximação de pequenos e médios produtores, e o esforço coletivo que manteve o sindicato firme em momentos críticos. Hoje, o sindicato atua como um suporte ao produtor rural, oferecendo desde serviços administrativos até orientação técnica. “Teve época em que um grupo pequeno tirava do próprio bolso para não deixar o sindicato fechar. Isso mostra o quanto a entidade é importante”, reforça.
Vituri também ressalta o papel do Sistema FAEP em conquistas importantes para o setor, como a flexibilização de exigências ambientais para propriedades e iniciativas como o projeto de irrigação noturna. A homenagem pelos 60 anos é mais uma forma de incentivo para a continuidade do trabalho.
“Precisamos mostrar que o sindicato e o Sistema FAEP são fortes e que vale a pena participar”, afirma.
Paranavaí: crescimento orgânico
A história do Sindicato Rural de Paranavaí começa em 1959, com a criação de uma associação de produtores.
A formalização como sindicato ocorreu em 1966, com apoio do Sistema FAEP.
“O nosso sindicato está na base do sistema sindical do Estado, como pioneiro na organização rural”, destaca o presidente Ivo Pierin Junior.

A trajetória do dirigente se confunde com o desenvolvimento da agropecuária na região. Nascido em 1952, Pierin cresceu acompanhando o trabalho do pai, um dos pioneiros de Paranavaí, que participou dos diferentes ciclos produtivos, desde o café até a madeira, sempre com uma visão de agregar valor à produção. Embora tenha se mudado para Curitiba para estudar Farmácia e Bioquímica, o campo falou mais alto. De volta às origens em Paranavaí, Ivo passou a se envolver gradualmente com a vida sindical, primeiro de forma indireta, até assumir funções na diretoria. Em 1999, chegou à presidência do sindicato, cargo que ocupa desde então, consolidando uma liderança marcada pela continuidade e pelo vínculo com os produtores.
Pierin relembra que, nos primeiros anos do sindicato, o cenário era marcado pela produção do café. Naquele período, a entidade contava com cerca de 30 associados. No entanto, eventos climáticos extremos, como a histórica geada negra, mudaram os rumos da produção local. A partir daí, os produtores passaram a diversificar suas atividades, migrando para a pecuária e culturas como algodão, laranja e cana-de-açúcar, em um movimento que redefiniu a economia agrícola local e exigiu maior organização coletiva.
Ao longo das décadas seguintes, o sindicato atuou diretamente no suporte desses produtores diante das crises, buscando acesso a financiamentos, assistência técnica e medidas de estabilização de preços. Também teve papel relevante na introdução e fortalecimento de novas cadeias produtivas, como o caso do leite e da plantação de laranjas.
Hoje, com cerca de 250 associados, a entidade mantém sua atuação próxima ao campo, funcionando como o elo entre o produtor e o Sistema FAEP.
“Sempre fomos um braço do produtor junto com a Federação. Antes, muitos não conheciam esse trabalho, mas hoje, com a comunicação mais ágil e digital, o produtor recebe as informações em tempo real”, afirma Ivo. “A orientação técnica e os treinamentos do Sistema FAEP, aliados à presença do sindicato na base, consolidaram um modelo de atuação próximo e efetivo” exalta.
Jacarezinho: atuante e eficiente
Na parede do Sindicato Rural de Jacarezinho, duas placas contam parte de uma trajetória de conquistas: 45 e 50 anos de atuação. Em breve, a terceira será instalada, marcando seis décadas de história. Para o presidente Eduardo Sergio Quintanilha, esse novo quadro simboliza resistência e continuidade.
“Nós conseguimos melhorar e ficar mais fortes dentro desse tempo”, afirma.

Quando a entidade foi oficialmente fundada, em 21 de março de 1966, Quintanilha ainda era estudante de Agronomia, em Curitiba. Formado em 1969, o dirigente acompanhou a transformação da antiga associação que deu origem ao sindicato, um processo do qual seu pai participou. Naquela época, Jacarezinho figurava entre as principais cidades do Paraná, impulsionada pela força do café. “O comércio de café era um negócio impressionante. Dezenas de famílias viviam só disso”, relembra.
O sindicato teve papel ativo nesse período, oferecendo serviços e apoio direto aos cafeicultores. No entanto, as geadas que atingiram a região provocaram uma mudança profunda no perfil dos associados, afastando médios e pequenos produtores e concentrando a base nos grandes. Ainda assim, a entidade se manteve ativa e relevante.
Hoje, o cenário é outro. A produção cafeeira aposta na qualidade ao invés de quantidade, com destaque para cafés especiais que ganham projeção em eventos especiais. Além disso, culturas como cana-de-açúcar, soja e milho fortalecem a economia local. Nesse contexto, o sindicato atua em diversas frentes, com foco especial na capacitação.
“Nos quarenta anos que estou aqui, considerando o número de cursos, treinamentos e eventos, com certeza somos um dos maiores sindicatos do estado”, comemora, orgulhoso. “Somos um sindicato eficiente, com contas em dia e atuante, mesmo diante de limitações”, complementa.
Alto Paraná: aposta na educação e sucessão rural
Antes da organização sindical, os produtores rurais do município de Alto Paraná contavam apenas com iniciativas isoladas. “Eram cerca de 40 a 50 produtores que tentavam resolver os problemas ligados ao campo, sem uma entidade que falasse por eles. Foi necessária uma organização”, relembra Adriana Kuhnen Warmiling, atual presidente do sindicato rural local.
Nascida em Paranavaí, Adriana cresceu em uma família ligada à produção de leite e mandioca. A mudança para Alto Paraná, na década de 1980, marcou o início de uma trajetória pioneira, pois sua família implantou a primeira farinheira da região. O envolvimento com o sindicato veio cedo: aos 16 anos, já acompanhava o pai, Dionísio Warmiling, nas reuniões e participava de cursos do Sistema FAEP.

E, sendo filha de um grande produtor da região, sempre recorreu aos serviços do sindicato para registros de funcionários, folha de pagamento, entre outros serviços de contabilidade. “Foi um caminho natural até a presidência, pois sempre estive próxima do sindicato e das necessidades do produtor”, afirma.
Ao longo dos anos, Adriana acompanhou as transformações econômicas locais, como o declínio da cafeicultura e a redução populacional do município (de 40 mil para 14 mil habitantes atuais). Nesse cenário, o sindicato se consolidou como apoio essencial ao produtor, oferecendo serviços como regularização de propriedades e encaminhamentos previdenciários.
Na presidência desde 2015, Adriana foi incentivada a assumir a liderança por antigos presidentes, que enxergaram nela uma capacidade natural de articulação.
Atualmente em sua sexta gestão, a dirigente é reconhecida pela proximidade com a comunidade. Essa característica segue marcando sua atuação. “Alto Paraná é um município pequeno. No banco, na farmácia ou até na fila do supermercado, o produtor me encontra e fico feliz em poder atender ali mesmo. Isso acontece quase todos os dias”, conta.
No cenário do sistema sindical rural, Adriana destaca a própria continuidade da entidade e o fortalecimento das parcerias com o Sistema FAEP, responsável por capacitações que impulsionam atividades como a produção de laranja e mandioca na região.
Para o futuro, a presidente aposta na educação e na sucessão rural. “Queremos manter o sindicato forte, aproximar ainda mais o produtor e ampliar parcerias com escolas e a prefeitura. Nosso papel é unir, orientar e mostrar caminhos”, destaca.
Sapopema: futuro ainda mais atuante
A história de Fábio Antonio Maximiano no sindicalismo rural vem de berço. Filho de agricultores, ele carrega o legado do pai, Paulo Branco, um dos fundadores do sindicato na década de 1960, presidente nos anos 1980 e um dos responsáveis pela construção da sede própria. “Cresci vendo o sindicato forte, atuante, sendo essencial até para a construção de igrejas na comunidade”, relembra.

Com o passar dos anos, no entanto, a entidade chegou a ficar estagnada. Ao perceber o risco de encerramento das atividades, Maximiano recebeu o convite de assumir o desafio de reconstruir a entidade.
“O sindicato ficou parado no tempo. Aceitei praticamente começar do zero”, relembra.
Desde que assumiu a presidência, em 2023, Maximiano lidera o processo de reorganização que já apresenta resultados concretos, com contas regularizadas, certidões em dia e ampliação dos serviços oferecidos.
Hoje, o sindicato é um ponto de apoio para o produtor rural, especialmente os pequenos e médios. Cursos, assistência técnica ativa e capacitações em áreas como operação de drones, tudo em parceria com o Sistema FAEP, têm atraído novos públicos.
“O produtor voltou a bater na porta em busca de orientação. Estamos resgatando a função social do sindicato”, destaca.
A região, marcada pelas pecuárias de corte e leite, também começa a mirar novas oportunidades, como o fortalecimento do turismo rural. Entre as iniciativas recentes ofertadas pelo sindicato estão a oferta de suporte em direito previdenciário, emissão de certificados digitais e a criação da comissão de mulheres, estratégias pensadas para ampliar o engajamento. “Estamos trazendo os associados de volta e abrindo espaço para novos. O sindicato está sempre de portas abertas para a comunidade”, ressalta.
Com o programa Assistência Técnica e Gerencial do Sistema FAEP atendendo mais de trinta propriedades e ações contínuas de orientação, como no caso das mudanças na nota fiscal eletrônica, a entidade retoma protagonismo no município.
“E tudo isso com suporte do Sistema FAEP, que tem sido essencial para o que já conquistamos e para projetar um futuro ainda mais atuante”, afirma o presidente.
Santo Antônio da Platina: papel histórico no agro estadual
Fundado a partir da união de produtores pioneiros na região, o Sindicato Rural de Santo Antônio da Platina tem suas origens em 1948, com a criação da Associação Rural, consolidando-se oficialmente como entidade sindical em 1966.
Desde então, a entidade tem firmado a posição de importante voz de representação do campo, nascida da necessidade de organização e defesa dos interesses dos produtores rurais.

Com início marcado pelo engajamento coletivo e pela busca de soluções para os desafios do campo, o sindicato cresceu de forma consistente ao longo das décadas. De um grupo inicial de 10 associados, a entidade conta, hoje, com 60 produtores, ampliando sua atuação também para municípios vizinhos como Jundiaí do Sul, Guapirama, Conselheiro Mairinck e Quatiguá.
Segundo o presidente José Afonso Junior, um dos orgulhos da entidade está em sua liderança histórica. O primeiro presidente do sindicato, Paulo Patriani, também ocupou a posição de dirigente máximo da FAEP, o que reforça a relevância de Santo Antônio da Platina no cenário estadual. Esse fato é preservado com cuidado pelos funcionários do sindicato, que mantém em seus arquivos jornais, atas e documentos que registram esse capítulo da história.
Atualmente, o sindicato se destaca pela oferta de cursos, treinamentos e eventos, além da atuação junto a órgãos públicos e parceiros, contribuindo diretamente para a modernização e o fortalecimento da gestão no campo. “O nosso sindicato nasceu da necessidade de dar voz ao produtor rural e continua cumprindo esse papel”, afirma o presidente.
Porém, ao longo de sua trajetória, a entidade enfrentou desafios como os altos custos de produção, violência no campo e a necessidade constante de atualização técnica. Mas, ainda assim, o sindicato consolidou importantes conquistas, como o fortalecimento institucional e a ampliação da participação dos produtores. “Hoje somos uma entidade estruturada, próxima dos associados e comprometida com a evolução do agro na região”, destaca Afonso Junior.
Mais do que representar, o sindicato segue como agente ativo no desenvolvimento regional, apoiando as principais cadeias produtivas como bovinocultura, grãos, avicultura e horticultura.














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