A viagem técnica aos Estados Unidos tem permitido que produtores rurais do Paraná conheçam tecnologias que podem apoiar a gestão e a tomada de decisões no campo. Em São Francisco, no Estado da Califórnia, a comitiva organizada pelo Sistema FAEP visitou empresas que desenvolvem soluções baseadas em inteligência de dados, aplicadas desde a análise do DNA dos micro-organismos do solo até imagens de satélites.
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Na empresa Earthoptics, especializada em inteligência de solo e análise de dados agrícolas, o grupo formado por presidentes e diretores de sindicatos rurais, representantes de órgãos do setor e técnicos da entidade, conheceu tecnologias que integram análises físicas, químicas e biológicas. O que antes levava meses, hoje, da entrada da amostra até a devolutiva dos resultados, fica pronto em 20 dias.
“Eles automatizaram todas as ações, o que garante qualidade na análise e melhores resultados. Além disso, com inteligência artificial, conseguem cruzar os dados disponíveis na literatura, com os resultados e a realidade específica de cada área, para atender à necessidade daquela cultura naquele momento”, destaca Flaviane Marcolini de Medeiros, supervisora na regional de Santo Antônio da Platina do Sistema FAEP.

A empresa também utiliza análise de DNA do solo para identificar patógenos, como nematoides, permitindo decisões mais precisas sobre tratamentos e culturas. “Eles conseguem identificar, inclusive, a raça desses nematoides. Com isso, o produtor age, naquela área, de forma mais assertiva, evitando perda e disseminação desse patógeno”, completa Flaviane.
Outra solução disponibilizada pela Earthoptics envolve a possibilidade de usar a tecnologia para medir, com precisão, o carbono do solo, para fins de levantamento de crédito para a propriedade.
Trabalhadores virtuais
A escassez de mão de obra e o baixo uso de inteligência artificial no meio rural brasileiro foram temas na visita a Ideo, uma das maiores empresas de design do mundo. Na ocasião, Mario Valle Reyes, da Hotlum Powell Capital Management, apresentou possibilidades de uso de agentes de IA para executar tarefas administrativas e operacionais nas propriedades.
“Existe a possibilidade de criar um funcionário virtual que resolve tarefas específicas da propriedade, de qualquer porte, como gestão de orçamento, documentos fiscais, contábeis e organização de estoque, por um custo mais acessível. O produtor precisa delegar à tecnologia essas tarefas operacionais e concentrar seu tempo naquilo que, de fato, gera mais valor”, diz Alexandre Lopes Martins, chefe da assessoria de inovação da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que faz parte do grupo.

O produtor e médico veterinário Luis Augusto Carniel, representante do Sindicato Rural de Marmeleiro, também identificou aplicações práticas para a inteligência artificial. Entre as possibilidades, Carniel vislumbrou a criação de uma plataforma que conecte produtores a serviços veterinários. “Essa plataforma permitiria a contratação de atendimentos como cirurgia, ultrassom, diagnóstico de gestação, tudo com avaliações dos serviços, dados e reputação disponíveis. Acredito que seria possível desenvolver mais especialistas em determinadas áreas e fornecer serviços de qualidade”, revela.
Na região Sudoeste do Paraná, Carniel atende a produtores na parte reprodutiva dos animais, sanidade e protocolos previstos no Programa Nacional de Combate à Brucelose e Tuberculose. “Nessa rotina, posso contar com a ajuda de agentes de inteligência artificial para prestar um serviço de mais qualidade, de forma mais otimizada”, completa.
Dados geoespaciais
Na Planet Labs, os produtores conheceram o uso de imagens e dados geoespaciais produzidos por uma frota de mais de 200 satélites, alguns hiperespectrais. Com o apoio da inteligência artificial, as imagens ajudam a identificar doenças, estresse hídrico e outros problemas nas lavouras.
O produtor rural e presidente do Sindicato Rural de Ortigueira, Marcos Eidam, já utiliza imagens de satélite por meio da cooperativa Frísia, da qual é cooperado. “Depois dessa palestra e entender as possibilidades, vou começar a analisar melhor essas imagens, a olhar com mais cautela”, afirma o agricultor, que produz soja, milho, trigo e cevada e, atualmente, tem oito trabalhadores atuando nas lavouras e no armazém.

Na Reservoir Farms, incubadora de startups AgTech, a comitiva conheceu soluções voltadas a desafios práticos da agricultura, como a falta de mão de obra, dificuldades de planejamento e gestão, redução do uso de químicos e registro de informações. Uma das tecnologias apresentadas foi a Numanac, aplicativo que permite registrar observações, intervenções e tarefas por comando de voz e gerar relatórios.
“A possibilidade de conversar com um agente virtual para registrar os lançamentos da propriedade elimina horas na frente do computador. O produtor pode simplesmente enviar um áudio, que vai virar um registro dos custos da lavoura ou da manutenção de uma máquina. Estamos conhecendo muitas possibilidades nesta viagem técnica”, conclui Eidam.

Automação
Em Salinas, Condado de Monterey, na Califórnia, a comitiva visitou a Axis AG, empresa que desenvolve soluções agrícolas para auxiliar produtores locais na conhecida capital da salada, como soluções de automação para pulverização de precisão. Uma dessas, um equipamento que fica acoplado ao trator para pulverizar e fazer o raleio em hortas, capaz de identificar a cultura e eliminar somente as plantas daninhas.
A outra solução é o robô da Bonsai Robotics, que realiza a pulverização de forma autônoma. O equipamento mapeia a área de pulverização e reconhece plantas daninhas pela clorofila, eliminando-as com a quantidade necessária de herbicida, acabando com o prejuízo.
Ambas as máquinas são ajustadas para evitar a deriva e, além de agilizarem os processos, ajudam a resolver problemas como o custo com mão de obra.

O primeiro equipamento está desenhado para atender, atualmente, áreas de horticultura, em especial alface, cebola, alcachofra, além de flores. Já o segundo tem aplicação em parreirais, que requerem o controle na entrelinha da cultura.
“Tudo isso influencia na eficácia. O equipamento usa baixa pressão para evitar deriva e não atingir a hortaliça. Realmente é uma necessidade que o produtor do Paraná tem. Eu, certamente, investiria para usar na minha lavoura”, comenta João Ricardo Bortolassi, presidente do Sindicato Rural de Jaguapitã, que planta cerais na região (no verão, soja e, no inverno, milho e trigo).
Na California, a última parada técnica do grupo coordenado pelo Sistema FAEP ocorreu em Los Banos, região do Vale Central. Lá, os produtores conheceram a tecnologia da Ecorobotix, voltada à pulverização ultrasseletiva, ou seja, que utiliza inteligência artificial e câmeras de alta velocidade para viabilizar a detecção planta a planta. O equipamento também é para o trator e, segundo a empresa, reduz até 95% o uso de herbicidas.
“O principal benefício dessa tecnologia é a precisão no controle de ervas daninhas. Não precisa se preocupar com deriva e desperdício de produto. Temos muito mais controle do manejo”, afirma o trabalhador rural Daves Vieira, que atua com o equipamento na plantação de melão, onde a demonstração da tecnologia ocorreu.















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