A família de Daniel Steidle tem uma profunda relação com o campo. Os avós dele, Hans e Hildegard Kirchheim, migraram da Alemanha em 1936, estabelecendo-se em Rolândia, na região Norte do Paraná, quando tudo ainda era floresta. Propriedade de família, a Fazenda Bimini passou por duas gerações. Agora, Steidle planeja a sucessão para seus dois filhos, Endi e Erê, com 23 e 21 anos, respectivamente.
A preparação para o futuro, no entanto, é coisa recente. Só começou depois que parte da família de Steidle frequentou o Herdeiros do Campo, programa do Sistema FAEP criado para preparar os produtores rurais para o processo de sucessão familiar. Para Steidle, o curso contribuiu para quebrar um tabu.
“Antes, nós não falávamos de sucessão”, diz o agricultor, de 62 anos. “O curso fez com que a gente compreendesse o caminhar de cada um de nossa família. Passamos a conversar mais. No início, a minha mãe [Ruth Bárbara Steidle, de 87 anos] estava aflita. Com o curso, ela viu que estamos nesse processo”, acrescenta.
Ofertado desde 2016, o Herdeiros do Campo foca no planejamento futuro das propriedades rurais, promovendo reflexões a partir da realidade de cada família participante. São cinco encontros, que ocorrem sob três dimensões: família, empresa e propriedade. Ao longo dos trabalhos, as famílias iniciam a elaboração de um plano de sucessão, além de contar com orientações direcionadas aos seus casos específicos.
“O Herdeiros do Campo permite que a família saia agindo de forma sinérgica e, a partir das discussões, desenvolva um plano de ação que norteie a sucessão”, destaca o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.
Trilha para o diálogo
Um dos pré-requisitos do programa é que cada família participante tenha representantes de pelo menos duas gerações. Os encontros abordam questões jurídicas relacionadas à sucessão familiar, passam pela visão estratégica do empreendimento rural e por temáticas relacionadas ao diálogo entre gerações, entre outros temas.
Para Gumercindo Fernandes Junior, que atua como instrutor do programa, a sucessão tende a ser pouco discutida entre as famílias por uma questão cultural. Por isso o Herdeiros do Campo é tão importante, pois tem a capacidade de nortear os produtores rurais nesse processo, garantindo prosperidade aos empreendimentos rurais.
“Não somos como o europeu, que tem por hábito planejar a transferência do patrimônio. Temos a cultura de esperar a fatalidade para, só então, transmitir o patrimônio. A sucessão pode e deve ser planejada em vida, com todos os sucessores envolvidos. O programa ensina isso”, aponta Fernandes Junior.
No caso da turma de Rolândia, o instrutor destaca um indicador positivo: após a conclusão do curso, cinco famílias procuraram o sindicato rural local para pedir auxílio para a elaboração do protocolo familiar, um instrumento jurídico para se iniciar formalmente o processo de sucessão antes do falecimento dos patriarcas.
“Quando se unem diferentes gerações, o diálogo avança de forma prática, se quebra o tabu e se demonstra que esse consenso sempre dá bons frutos”, conclui Fernandes Junior.
Na prática
O pecuarista Darci Orlando Rocha administra uma propriedade rural de 133 hectares, voltada à bovinocultura e ovinocultura, localizada em Guaraci, município vizinho a Rolândia. Ele participou do Herdeiros do Campo, ao lado da filha Caroline, de 39 anos, e do filho Luiz Fernando, de 37 anos. Os sucessores já participam do dia a dia da propriedade, implantando, recentemente, um sistema de agrofloresta. A partir do programa do Sistema FAEP, Rocha decidiu criar uma holding, para facilitar o processo sucessório.
“Vou passando as cotas [da holding] a eles, para que não tenham problemas no futuro”, resume. “Com esse curso, houve mais aproximação entre meus filhos, eu e minha esposa. Antes, não discutíamos certos assuntos, porque, como ‘patrão da família’, eu achava que estava tocando bem a propriedade. Mas vi que meus filhos têm ideias novas, muito positivas”, observou.
Segundo a presidente do Sindicato Rural de Rolândia, Gayza Maria de Paula Iácono, a mobilização do curso no município ocorreu a partir da demanda dos próprios produtores rurais. Ela identifica que tem havido dificuldade em “manter os jovens nas propriedades depois de formados”. Além disso, o programa é uma oportunidade de aproximar as famílias do sindicato rural.
“A sucessão na área rural é mais difícil que em outros setores. O agricultor é, por natureza, resistente a certas mudanças e isso acaba afastando os sucessores, que buscam outros campos para atuar, deixando a propriedade muitas vezes com arrendatários e parceiros. Por isso, o curso é tão importante”, observa Gayza. “A sucessão tem que acontecer de forma leve, com comunicação clara, com as diferentes gerações de cabeça aberta, para fazer essa transição sem dor”, conclui.
Sucessão deve olhar o passado e mirar o futuro, diz produtor
O produtor rural Daniel Steidle respeita cada passo da trajetória de seus antepassados. Reconhece o esforço feito pelos avós, os alemães Hans e Hildegard Kirchheim, que foram alguns dos desbravadores da região de Rolândia, ainda antes da Segunda Guerra Mundial. “Foi difícil pra eles: moravam em uma cabana de palmito, tinham fome, doenças”. A família se dedicou ao cultivo de café, padeceu com a geada negra e, aos poucos, migrou para a produção de grãos. “Eles resistiram a tudo, com força”, define.
Com base nisso, Steidle acredita que a sucessão deve ser feita olhando o passado, mas mirando o futuro. “É uma terra com a história de nossos antepassados, carregada de significados e que nos traz oportunidades. Com a especulação imobiliária, o assédio é grande e as gerações mais novas tendem a vender a terra, por achar que é mais lucrativo. Mas nós temos que agregar valor à terra, olhar para o futuro”, diz Steidle.

Ao longo do Herdeiros do Campo, ele, o irmão Manuel e a mãe, Bárbara Steidle, participaram de uma série de discussões, que os fizeram vislumbrar a sucessão com maior clareza. Em um dos encontros, os filhos de Daniel Steidle – Endi e Erê – estiveram presentes. “Achei incrível, porque o curso propõe o resgate dos vínculos de confiança e de identidade, de não se ficar à mercê dos ventos do momento. É preciso ter um processo de continuidade”, avalia.
No curso, Steidle se lembrou de um ensinamento importante de seu avô. Há cerca de 30 anos, o patriarca reuniu os sucessores e avisou que teriam que cumprir uma condição para herdar a fazenda: abrir as portas da propriedade de 215 hectares para a comunidade local.
Desde então, a Fazenda Bimini tem funcionado também como um espaço voltado à educação ambiental, recebendo escolas públicas e grupos para visitas guiadas. A propriedade também tem uma parceria com a Embrapa Florestas, que já catalogou ali mais de 300 espécies de árvores nativas.
Para Steidle, é momento de o campo voltar a sua essência: de pessoas acolhedoras, trabalhadoras e solidárias. Ele menciona o exemplo de Rolândia, em que se faziam mutirões para construir centros – como escolas e hospitais – em favor da comunidade. Na avaliação dele, a ênfase em política tem provocado uma carga ideológica que atravanca o setor agropecuário e provoca a divisão sem precedentes.
“O Brasil tem condições de ser o celeiro do mundo, como se diz, e de proteger os seus biomas. Se cada propriedade tivesse dois hectares destinados ao sistema agroflorestal, quanto não avançaríamos?”, questiona. “A questão política tem atrapalhado e nos afastado do que somos, um povo gentil, acolhedor. Antes de descompactar a terra, precisamos descompactar nossas mentes e voltar à essência”, conclui.
Confira os detalhes do Programa Herdeiros do Campo
Objetivo: despertar a família rural para o planejamento sucessório, considerando as três dimensões: família, empresa (negócio) e propriedade (patrimônio).
Público-alvo: produtores proprietários de imóveis rurais e suas famílias. Cada família participante deve levar entre dois e quatro membros, de pelo menos duas gerações.
Carga-horária: 42 horas, ao longo de cinco encontros de oito horas cada e duas horas de consultoria individualizada.














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